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França vota renovação na continuidade

Nem completa mudança de paradigma, nem simples continuação do sistema que governa o país há dezenas de anos. Ao colocar (com 23,9%) o candidato independente Emmanuel Macron na liderança do primeiro turno das presidenciais deste domingo, dois pontos à frente da líder da extrema direita, Marine Le Pen (21,7%), o eleitorado francês abriu caminho a uma solução de compromisso – renovação na continuidade.


 

Carlos Fino


O sistema político foi fortemente abalado – pela primeira vez na história da Vª república, nos últimos 60 anos, nem os republicanos (centro-direita) nem os socialistas (centro-esquerda) estarão representados na disputa final pela presidência, o que só por si constitui uma pequena revolução.

Vítimas das políticas impopulares do presidente Hollande, que decepcionou toda a gente, os socialistas não foram além de uns inexpressivos 6% para o seu candidato, Benoît Hamon. Boa parte do eleitorado socialista escapou para o movimento A França Insubmissa, de Jean Luc Melenchon, uma espécie de Bernie Sanders francês, que em 2012 teve 11,1% dos votos e agora chegou aos 19%, insuficientes, no entanto, para lhe garantir presença na segunda volta.

Algo de semelhante se passou à direita, com François Fillon, abalado por denúncias, a não ir além de 20%.

O voto de protesto foi suficiente para afastar os políticos tradicionais da disputa e iremos por isso assistir certamente a uma mudança geracional. Mas distribuído que foi por diversos agrupamentos, não criou peso suficiente para abrir caminho a mudanças radicais.

Le Pen disputará o segundo turno da presidência, o que constitui um avanço importante em relação a 2012, uma inegável vitória da Frente Nacional, que dessa forma consolida a legitimidade no panorama político francês.

Mas Marine terá agora pela frente todo o establishment, temeroso do abalo que poderia significar a sua chegada ao poder – saída do euro e da União Europeia, contestação da Aliança Atlântica, fecho das fronteiras, políticas anti-imigração, e por aí fora.

Por maior que seja o descontentamento, não parece que o desespero seja tão grande que leve a maioria a embarcar nessa aventura.

Já a noite passada, os líderes da direita cerraram fileiras e apelaram ao voto em Macron, o mesmo tempo feito Hollande e o ex-primeiro ministro socialista Emmanuel Vals.

Uma primeira sondagem indica já que Macron pode assim chegar, dentro de 15 dias, aos 62%, contra 38% para Le Pen.

Marine pode assim repetir o triste destino político do pai, Jean Marie, que em 2002 conseguiu chegar ao segundo turno das presidenciais para ser ingloriamente esmagado pelo seu adversário, Jacques Chirac.

Com baixo crescimento económico, aumento do desemprego, onda de refugiados e perigo terrorista, a França vive um profundo mal-estar e precisa de reformas.

A ironia é que esteja aparentemente pronta para entregar essa missão inadiável a um homem que é o mais lídimo produto do sistema que há meio século governo o país – um quadro formado na mais tradicional Escola Nacional de Administração, ex-ministro da economia e das finanças de Hollande, com passagem pelo banco Rotschild.

Como ensinou Lampedusa, no romance O Leopardo, através da voz do simpático príncipe Falconeri, às vezes é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma…

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Escrito por: África 21 Digital

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