Redes Sociais:
HomeIdeiasUm sopro de decência

Um sopro de decência

Lula recebeu a sua primeira condenação, após um longo acerto de contas entre o homem que já deteve todo o poder no Brasil e uma Justiça não raro suspeita de ter dois pesos e duas medidas, geralmente para beneficiar os poderosos e os mandantes. Desta vez não aconteceu assim.

Nesta quarta-feira, 12 de julho, o juiz de primeira instância Sérgio Moro deu um contributo inestimável para resgatar a dignidade do  sistema judicial do país. Mais relevante que o peso específico da condenação – nove anos e seis meses de prisão, perda de direitos e de bens – é o seu significado.

Lula, com todo o poder de que usufruiu ao longo de quase duas décadas, não conseguiu, desta vez, escapar ao braço das leis. Tinha-o conseguido no mensalão. Nessa altura passou incólume. Atirou responsabilidades e culpas para cima dos outros. Companheiros e não companheiros. Aliados e adversários.

Quem tenha conhecido por dentro o funcionamento de organizações como o Partido dos Trabalhadores, que Lula comandava, sabe que só por milagre o ex-presidente não estava a par das malfeitorias que levaram vários dos seus adjuntos aos calabouços. Como não acredito em milagres, resta-me a convicção de que a quem cabia investigar não o fez com o empenho que deveria ter tido. Se o tivesse feito, talvez o país tivesse escapado à grave crise em que está mergulhado há mais de três anos.

Lula não é, evidentemente, o único causador das desgraças do país. Muitos continuam deambulando pela Esplanada dos Ministérios e pelos corredores palacianos, resguardando-se da lei atrás das muralhas do poder que lhes foi colocado nas mãos por um país que ainda se deixa manipular, um país onde o voto de cabresto continua a fazer-se presente. Um país onde se compram votos, eleições, parlamentares, decretos, como se verifica quase diariamente nas revelações da Lava Jato.

Responsabilidade

Mas Lula não é só responsável, juridicamente, por crimes de corrupção e de lavagem de dinheiro. Lula é, sobretudo, responsável por ter ludibriado as esperanças de milhões de brasileiros que nele votaram e que o conduziram à rampa do Planalto, quando ganhou, pela primeira vez, a faixa presidencial. Lula, com o seu pragmatismo populista, sem ética, fez esboroar os sonhos de construção de um país mais democrático, mais justo, mais progressista.

Lula e Dilma abriram as portas à voracidade direitista e conservadora de que Temer é o protagonista mais visível. Se Temer ainda está no poder é graças a Lula e Dilma, cujos desmandos políticos e comuns reduziram drasticamente a mobilização da indignação popular, hoje quase sem bandeiras e sem partidos, quase todos envolvidos, salvo raras exceções, no lamaçal da corrupção.

E o poder das ruas

A condenação de Lula é, em si mesma, um sopro de decência. Mas seria temerário concluir que esse sopro vingará, crescerá e ajudará a construir um Brasil mais justo e mais ético. Dificilmente isso acontecerá se os brasileiros não saírem às ruas multiplicando o sopro de um juiz de primeira instância num grito de milhões. Essa será a única forma de expulsar os sátrapas e garantir uma democracia dinâmica e progressista. Foi o que aconteceu com o afastamento de Dilma. Não fossem as ruas, Dilma Rousseff estaria no Planalto, afundando mais e mais o país.

Ao concluir a sentença, o juiz Sérgio Moro escreve: “Prevalece, enfim, o ditado ‘não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você’ (uma adaptação livre de “be you never so high the law is above you”).

Foi assim desta vez. O Brasil merece, como merecem todos os povos, que seja assim de todas as vezes. O Brasil tem pela frente uma luta demorada, por novos partidos, por um novo sistema político, com avanços, recuos e novos avanços, como sempre acontece.

Nenhum comentário

Deixe um comentário