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Notas soltas a propósito de uma reunião da CPLP

A globalização e o multilateralismo andam de mãos dadas. Os blocos que foram sendo criados por todo o mundo – regionais, linguísticos ou apenas econômicos – contribuem para o melhor conhecimento e entendimento entre os povos.  Ou seja, ajudam a humanidade a entender-se. A CPLP é um desses blocos. Os diplomatas têm papel relevante nessa missão, mas nem sempre os gastos do erário público, mesmo quando os protagonistas são honrados e parcimoniosos, são compensados pelos resultados.

É o que parece acontecer, com alguma frequência, com as reuniões de “alto nível” da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Espalhados por quatro continentes, os governantes ou os emissários dos países membros cobrem milhas e milhas em viagens de um lado para o outro. Em reuniões mais ou menos demoradas discutem projetos, estratégias, planos. Muitos desses planos nunca passam disso mesmo, isto é, nunca se concretizam. As decisões de todas as anteriores cimeiras que nunca se efetivaram dariam para compor uma daquelas vetustas enciclopédias impressas do antigamente.

Vem isto a propósito da 22. reunião ordinária dos ministros da CPLP que aconteceu nesta quinta-feira (20) em Brasília.

Os convidados foram recebidos com a tradicional  boa educação e afabilidade da diplomacia brasileira, apesar dos tempos conturbados que o país vive.

Numa azáfama política digna de nos espantarmos, o presidente Michel Temer conseguiu trinta minutos para dar um pulo do Planalto ao Itamaraty, e deste ao Planalto de novo, onde diariamente anuncia milhões para isto e para aquilo. Quando passo à porta do palácio não consigo evitar pensar numa tenda de milagres.

Não estava no programa divulgado, mas Temer não mede esforços para conseguir um palanque onde possa mostrar que existe, que o país não está parado, que a recessão é coisa do passado e que a denúncia de corrupção passiva apresentada pela Procuradoria Geral da República é uma maquinação de adversários e criminosos. Tudo, tudinho, mentiras infames, garante. Enfim, o futuro, mais próximo ou mais longínquo, o dirá. Por agora, Temer diz que quer colocar o país nos trilhos. A expressão faz-me lembrar a sibilina ameaça que ouvia em criança: “olha que te ponho na linha!”.

Mas, voltemos ao Itamaraty e à reunião da CPLP. Fiquemos todos nós tranquilos. Tudo correu muito bem. O Brasil, mesmo em tempos difíceis, é um ótimo anfitrião. O almoço oferecido nos salões palacianos estava impecável. Como sempre, aliás. Trocaram-se amenidades, disseram-me.

A única dificuldade teve-a o protocolo, mas nada de monta. Deveriam estar presentes nove ministros dos Negócios Estrangeiros ou das Relações Exteriores, conforme a designação preferida por cada um dos países, mas só compareceram quatro com tal título. A saber: o anfitrião, senador Aloysio Nunes Ferreira, um “tucano”, do PSDB, partido por enquanto aliado de Temer; o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal,  o socialista Augusto Santos Silva; o ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades de São Tomé e Príncipe, Urbino José Gonçalves Botelho; e, por Cabo Verde,  Luís Filipe Lopes Tavares, ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades e também ministro da Defesa.

Dos outros,  cinco participantes foram um embaixador em Brasília, de Angola, um representante permanente  junto da CPLP, da Guiné-Bissau, um secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, da Guiné Equatorial, um vice-ministro, de Timor Leste, e outro representante permanente junto da CPLP, neste caso de Moçambique.

Ora, o estatuto dos representantes sinaliza, como bem se sabe, a importância dada a este tipo de eventos. Dito isto, percebemos o interesse dos governos de cada um dos países membros. E todos e cada um deles, certamente, terá a melhor das justificações.

Em declarações em Lisboa à imprensa, o ministro Augusto Santos Silva, em vésperas de viajar para Brasília, disse que o Governo português considera que “há muito trabalho a fazer para tornar a marca CPLP mais conhecida e a imagem da CPLP mais valorizada nas diferentes sociedades”.

Tem toda a razão o sr.ministro. Há duas décadas que isso é dito. Por todos os ministros, de todos os governos, de todos os países. Pena é que pouco seja feito para concretizar as ideias.

Uma das sugestões que me atrevo aqui a deixar é que os governantes falem mais com os jornalistas,  com os comunicadores, sobre a CPLP e tudo o mais. Que falem mais com os eleitores. E que não os procurem apenas em situações de crise ou em períodos eleitorais. E que os diplomatas, que servem os estados e os governos, não se barriquem nas embaixadas e nos consulados, temerosos sabe-se lá do quê…

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Escrito por: África 21 Digital

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