Redes Sociais:
HomeIdeiasA relação difícil entre os restaurantes e os vinhos (1)

A relação difícil entre os restaurantes e os vinhos (1)

O vinho e a comida são as duas metades indissociáveis da gastronomia. Desprezar esta realidade e ignorar a riqueza vinícola da própria região é tão mau como especular com os preços.

Há dias fui jantar a Alcobaça, cidade conhecida pelo seu espectacular mosteiro e aparente centro turístico do interior português. Procurei especificamente um restaurante famoso (o António Padeiro), dentro dos chamados “restaurantes típicos”.

Por regra, vejo sempre a lista dos vinhos a acompanhar a ementa, em especial se não conheço o restaurante. É uma questão de curiosidade natural mas é também a tentativa de encontrar um vinho que ainda não conheça e de equilibrar a escolha do prato com a escolha do vinho.

No António Padeiro, a escolha da comida foi simples, até por a ementa ser pequena: Folhado de Pato. Estava bom mas, em termos relativos, dificilmente me fará regressar. Passando à lista dos vinhos, a escolha já foi problemática.

A imagem que aqui se publica ilustra o problema: a lista do António Padeiro tem, em todos os vinhos, espaços em branco, que correspondem, pelo menos, ao ano de colheita, e talvez às castas. Além do mais, o aspecto é pouco convidativo, com as páginas visivelmente muito manuseadas e mesmo ratadas.

Vista ao pormenor, a lista é desequilibrada. A secção regional (Lisboa/Tejo) é diminuta, a do Alentejo é enorme, a dos Douros faz por isso e a do Dão é quase só um conjunto de vulgaridades. Quanto aos locais, foi necessário ver as garrafas e os respectivos contra-rótulos para decidir que estes não. A combinação de castas não me agradava e um dos vinhos tinha Cabernet Sauvignon. A cerca de quatro quilómetros de Alcobaça fica a empresa Parras Wines, a que aqui já me referi de passagem, que tem um bom leque de vinhos das regiões Lisboa e Tejo e a preços muito razoáveis. Não está aqui representada.

Limitado pela oferta e pelo preço, pedi um Álvaro de Castro (Dão). Não havia. Recuei para o Douro e para o consensual Esteva. Havia, e cumpriu a sua missão.

Compreendo que seja difícil manter uma lista de vinhos sempre actualizada. Há os que têm maior saída e que se esgotam. O fornecedor (produtor, retalhista, grossista ou distribuidor) pode não ter mais para vender. E isto pode repetir-se. Ou aparecer uma colheita que não tem as mesmas qualidades.

Há poucos meses, aconteceu-me o mesmo noutro local: da lista imensa de vinhos do restaurante A Lareira (Caldas da Rainha) pedi dois que já não havia e só o terceiro é que apareceu. Mas esta lista até está bem feita e bem organizada e o diálogo com a pessoa que me atendeu foi instrutivo e interessante. De certo modo, mesmo que haja vinhos desaparecidos, uma lista destas vale, até certo ponto, como uma memória.

No restaurante Naco na Pedra (Salir do Porto, Caldas da Rainha, e a oferta restaurativa mais nobre da região) a lista é uma das mais completas que já vi, a fazer lembrar a famosa carta de vinhos do extinto Isaura, em Lisboa, com indicação de regiões, castas, anos de colheita e uma boa selecção de vinhos à vista do cliente num armário da sala. Já me aconteceu pedir um vinho que já não havia. Também aqui se aceita que isso aconteça. Não é uma questão de regra mas de excepção.

O vinho e a comida são as duas metades indissociáveis da gastronomia. Uma e outra completam-se, amparam-se e dignificam-se mutuamente. Desprezar esta realidade e ignorar a riqueza vinícola da própria região, sobretudo em restaurantes de ambiente e preços mais distintos, é tão mau como especular com os preços e, com isso, convidar os clientes a não beberem vinho. Disto falaremos na próxima semana.

Digestivo

Sediada em Maiorga, a cerca de quatro quilómetros de Alcobaça, a empresa Parras Wine é uma das empresas vitivinícolas que tem diversificado a sua oferta, integrando vinhos e marcas de diversas regiões, do Douro ao Alentejo, com loja de serviço prestável aberta ao público. É um mundo a descobrir e eu já comecei, primeiro pelo Cavalo Negro tinto (2016, Tejo), e depois pelo Cavalo Negro branco, pelo Castelo do Sulco tinto (Seleção dos Enólogos, Lisboa, da Quinta de Gradil, no Cadaval) e até por um correctíssimo Dão tinto (Evidência). Recomendo-os a todos.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

Compartilhar

Escrito por: África 21 Digital

Nenhum comentário

Deixe um comentário