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A relação difícil entre os restaurantes e os vinhos (2)

Compro vinho no comércio e compro vinho quando vou a um restaurante, para o beber à refeição. Sei assim que a garrafa de vinho da marca X custa no supermercado 5 euros. É o preço de venda ao público, que inclui a margem de lucro do retalhista e um imposto aplicado à venda (o IVA, em Portugal) que é pago pelo comprador. E até posso considerar o preço de venda ao público (PVP) adequado, relativamente à qualidade.

Indo a um restaurante, posso encontrar o mesmo vinho à venda por 15 euros. O restaurante, no entanto, não o terá comprado a 5 euros no supermercado mais próximo. Comprou-o, provavelmente, a um distribuidor, num supermercado grossista ou até mesmo ao produtor. Nestes casos, poderá ter beneficiado de um desconto e, tendo de pagar IVA, poderá deduzir o IVA pago na sua própria contabilidade. E, mesmo que tivesse ido comprar o vinho ao supermercado, poderia pelo menos deduzir o IVA pago.

Ou seja, essa garrafa não lhe custou, portanto, os 5 euros. E se cobra 15, vendendo-o co a refeição que fornece, estará a ganhar mais de 10 euros.

A situação não é invulgar. É frequente encontrar em muitos restaurantes uma espécie de patamar ao nível dos 10 euros com a esmagadora maioria dos vinhos acima desse preço e um modesto “vinho da casa” abaixo desse preço que tanto pode ser escolhido por ser bom e menos caro como ser escolhido porque… é barato.

E isto acontece em restaurantes que acabam por ter poucos factores de atracção para lá da sua localização, de uma cozinha de serviços mínimos de sobrevivência ou de outros pormenores que estão longe da gastronomia e do prazer da mesa.

Porque quanto aos outros… Bem, uma cozinha de excelência (e são elementos que devem ser considerados como fazendo parte do preço que pagamos), com um serviço profissional e primoroso, um ambiente acolhedor e simpático e vinhos de qualidade (que podem ser verdadeiras descobertas, mesmo para o cliente mais avisado) até pode justificar preços mais elevados. Num caso destes, o que se paga por um vinho ou por um prato corresponde mais do que a uma garrafa ou a um conjunto de ingredientes no prato: paga-se tudo, incluindo o cuidado e o investimento que o restaurante pôs na escolha dos seus vinhos.

Há, da parte de muitos empresários da retauração, a tendência para procurarem um lucro maior e garantido na garrafa de vinho que compense o menos que ganham no resto. Não acredito, no entanto, que esta inflação gere um volume de vendas compensador. Ao que conduzirá, como tantas vezes se percebe, é ao afastamento dos clientes, que acabam a beber cerveja, ou água… o que, aliás, até sai mais barato.

DIGESTIVO

O vinho a copo começou a generalizar-se, nos últimos anos, nos restaurantes portugueses e é um avanço. De garrafas abertas propositadamente para o efeito ou de algum “bag-in-box” mais discreto, podem ser uma alternativa para quem queira “molhar o bico” durante a refeição. O pior, no entanto, é quando o preço do vinho a copo se aproxima do preço da tal garrafa vendida no supermercado. Não fica bem, por exemplo, vender copos semi-cheios a 3 euros que saem da tal garrafa que tem o PVP de 5 euros…

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: África 21 Digital

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