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É útil nunca esquecermos Angola

Num dos últimos artigos que escrevi para este órgão de comunicação social, pouco tempo antes das eleições realizadas em agosto passado, em Angola, vaticinei o que iria ocorrer. Afirmei que o partido MPLA venceria as eleições e que as mudanças políticas seriam de imediato conduzidas por este.

Fundamentei as razões. A situação económica de Angola, gravemente afetada pela queda da principal receita orçamental, resultante da mudança do petróleo, conduziu ao encerramento de centenas de empresas, agravando a questão social com o aumento do desemprego. A diversificação da economia não se iria dar por um estalar de dedos.

Acresce que a escassez de divisas, afetando a importação de bens e serviços, conduzindo a um quadro externo de crescente descredibilização, inclusive das instâncias económicas e financeiras internacionais.

A forma de transição para um novo ciclo, empreendido por José Eduardo dos Santos, não tinha outra alternativa. E porque na moldura constitucional de Angola o Presidente da República é o órgão de soberania que concentra em si os poderes essenciais do Estado, não era previsível – e eu próprio também o afirmei – que viessem a coabitar dois Presidentes com poderes muito semelhantes – o da República e o que dirige o partido maioritário.

Por isso mesmo, o Presidente eleito, João Lourenço, não podia perder tempo após a tomada de posse e não perdeu. Substituiu os principais responsáveis das empresas sob domínio nacional com relevo para a obtenção das receitas do Estado – diamantes, minas, petróleo e comércio externo – bem como no banco central, o BNA, por razões necessárias à credibilização das negociações de Angola com as instâncias financeiras internacionais.

Complementou este quadro com medidas que asseguram um arejamento da comunicação social mais condicente com os novos ventos.

Ao contrário do que aqui e além oiço referir, não se trata de uma caça às bruxas ou qualquer ação persecutória gratuita em relação às pessoas que em concreto foram substituídas. A realidade impôs-se e impõe-se por si. E ela é política, económica e financeira.

Agora entrar-se-á seguramente numa nova fase com diligências que conduzam à salvaguarda das relações económicas empresariais por parte de Angola, possibilitando o cumprimento das suas obrigações financeiras, tão indispensáveis ao desenvolvimento. Este objetivo envolve negociações com instituições bancárias internacionais, incluindo o FMI e naturalmente a disponibilização de Estados amigos, como Portugal, para cooperarem na medida do que for possível. No que a Portugal respeita, exige-o uma visão estratégica de futuro. Pela minha parte estou otimista com a evolução de Angola, seguro que Roma e Pavia não se fizeram num dia e que haverá muitos escolhos ainda pelo caminho.

Espero que Portugal esteja à altura, em função de uma estratégia de futuro – porque é disso que se trata. Os países da CPLP, e com eles Angola, são complementares da nossa presença na UE. É fundamental que não o esqueçamos.

Vítor Ramalho é secretário geral da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e dirigente do Partido Socialista português

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Escrito por: África 21 Digital

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