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Quem tem medo da “Rússia, Hoje”?

O presidente russo Vladimir Pútin sancionou esta semana a lei que obriga os media estrangeiros no país, sempre que financiados a partir do exterior, a registarem-se como “agentes de influência externos”- sob pena, se o não fizerem, de terem a sua atividade suspensa ou interditada.

É a resposta da Rússia a medida idêntica adoptada semanas antes pelos EUA em relação aos media russos na América: com base numa lei de 1938, criada para conter a propaganda nazi, o canal de televisão russo RT/Russia Today, financiado pelo Kremlin, teve que se registar na qualidade de “agente externo”…

Está assim consumado um confronto digno dos piores momentos da Guerra Fria: os meios oficiais dos dois países não reconhecem autenticidade mediática aos respectivos media, sejam públicos ou privados, vendo neles meros agentes de propaganda ao serviço de interesses outros que não propriamente os da informação.

Regressamos a uma situação idêntica à dos anos 70 e 80, quando os correspondentes soviéticos da agência TASS, dos jornais Pravda e Izvéstia e da editora Nóvosti eram considerados agentes de Moscovo e os correspondentes estrangeiros acreditados na URSS eram vistos localmente como agentes infiltrados do Ocidente: “Os que não são espiões, são jornalistas” – disse-me um dia um dos homens do departamento de imprensa do ministério dos negócios estrangeiros, de quem dependia a concessão das respectivas credenciais.

Na mesma linha de total desconfiança, a primeira ministra britânica Theresa May, falando há dias em encontro da União Europeia com seis Estados da antiga URSS – Geórgia, Moldávia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Azerbaijão e Arménia – elevou ainda mais a intensidade do confronto qualificando a Rússia de “Estado hostil”.

Se alguma coisa mede bem a profundidade dos seus sentimentos em relação a uma causa é o dinheiro que os britânicos estão dispostos a gastar para a promover ou sustentar; ora Londres, sempre tão avara e avessa a abrir os cordões à bolsa, anunciou agora estar disposta a gastar 100 milhões de libras esterlinas (132 milhões de dólares!) nos próximos cinco anos para contrariar a “campanha de desinformação” do Kremlin.

Mesmo antes da investigação em curso nos EUA sobre a alegada ingerência russa nas eleições americanas chegar ao fim e apresentar as suas conclusões, os políticos que dão o tom em Washington – e, por extensão, em Londres – partem já do princípio de que isso de facto aconteceu, avançando com medidas punitivas destinadas a fazer os russos “pagar um elevado preço”.

Manietado por decisão do Congresso, já aprovada, no sentido de renovar e até intensificar as sanções contra a Rússia, Trump aparentemente pouco ou nada poderá fazer no sentido de contrariar a tendência para o confronto. À mínima insinuação de uma possível reaproximação com a Rússia, de imediato se levanta em Washington um coro de protestos para paralisar a iniciativa.

Pretextos novos, práticas antigas

À primeira vista, os pretextos invocados são novos – ingerência, através da manipulação em grande escala da informação e sua distribuição em massa pelas redes sociais e até eventual confabulação com forças políticas internas.

Mas nesta, como noutras áreas, não há verdadeiramente nada de novo sob o Sol – as tentativas de um Estado interferir nos processos internos de outro não são de hoje e os russos não foram nem os primeiros nem os únicos a fazê-lo. Basta lembrar a verdadeira campanha de desinformação promovida pelos EUA para tentarem convencer o mundo da existência de armas de destruição em massa no Iraque. Mais – o azedume contra fontes alternativas de informação levou inclusive militares americanos a bombardearem a sede da Al-Jazeera e o hotel Palestina, centro dos media estrangeiros em Bagdad.

Infelizmente, as democracias também mentem – não são apenas as ditaduras ou os regimes autoritários que o fazem. E quando começa uma guerra, como disse o senador americano Hiram Johnson, “a primeira vítima é a verdade”. Talvez não por acaso, da primeira Guerra do Golfo à Líbia, passando pela Bósnia, o Kosovo ou o Iraque, não houve um conflito em que os EUA estivessem empenhados que o liberal New York Times não apoiasse nos seus editoriais… Na última Guerra do Golfo, a própria BBC também não esteve isenta. E isto para lembrar apenas os casos mais recentes.

Na minha juventude, nos anos 60, a Emissora Nacional do regime de Salazar já tinha um programa intitulado – “A verdade é só uma – Rádio Moscovo não fala verdade!”. Nesse caso, era a “verdade” de uma ditadura contra a “verdade” de outra. Que agora, meio século depois, terminada a URSS e relativamente democratizada a própria Rússia, as democracias ocidentais insistam na mesma tecla, só mostra a persistência de uma conflitualidade mais profunda, que vai para além das diferenças de regime.

Uma coisa é certa – sempre que surge uma nova tecnologia, esta é aproveitada para fins políticos e militares. Basta lembrar o uso do rádio, uma forma simples e relativamente barata de disseminar informação, cuja utilização atingiu o auge durante a Segunda Guerra mundial.

Agora, o que há de novo, é a velocidade instantânea da difusão e, acima de tudo, a possibilidade de cada um nela poder participar pessoalmente através das redes sociais.É isso que faz a diferença e é isso que parece também perturbar os poderes instituídos – seja no Ocidente, seja na Rússia: o facto de terem deixado de ter o monopólio da informação e verem surgir, no seu próprio território, fontes alternativas que serão tanto mais credíveis quanto mais fechado sobre si mesmo for o sistema mediático oficial existente.

Tudo o que saia da informação oficial ou oficiosa tende a ser catalogado pelo poder do momento de “fake news”; e, de facto, há nas redes muita falsa informação. Mas o maior perigo, para os poderes instalados, vem de informação que não é necessariamente falsa – ela é apenas diferente, dando expressão e voz a aspectos da realidade e a personagens que os sistemas instituídos de cada lado tendem a ignorar ou negligenciar.

No final dos anos 70, face à fortíssima oposição que sofreu dos detentores dos meios de comunicação e dos próprios Estados, a tentativa de criar uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação (NOMIC), expressa no célebre Relatório McBride, patrocinado pela UNESCO, falhou. Mas as suas conclusões fundamentais mantêm-se válidas – quanto mais diversas e independentes forem as fontes, maior liberdade: “Um mundo, muitas vozes”.

Por isso, de pouco adianta cada um catalogar os órgãos de comunicação do outro de “agentes externos”. O que importa é garantir a veracidade e autenticidade das informações difundidas através de critérios básicos de objetividade, com a garantia, sempre que possível, da idoneidade de profissionais devidamente formados e valorizados.

Carlos Fino, jornalista português, correspondente internacional, vive em Brasília desde 2004.

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Escrito por: África 21 Digital

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