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Copos

O jornalismo estatístico, assente no fascínio pelos números de jornalistas que não tiveram um convívio feliz com a matemática, tem riscos e um deles, neste caso concreto, é este: os copos por onde se bebe vinho estão maiores e, como tal, bebe-se mais vinho. Talvez. Ou talvez não. Em que ficamos?

A questão foi primeiro suscitada por um estudo da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Não se afastando muito da óptica do controlo de consumo, o estudo diz que sim, que tudo indica (mas sem o conseguir confirmar) que se bebe mais porque os copos estão maiores.

O jornal online de temas de saúde “BMJ” pegou no estudo e resumiu-o, mantendo a hipótese. A seguir foi o generalista “The Guardian”, que seguiu a mesma linha. Pelo meio ainda apareceu uma voz sensata, embora timorata, a da associação britânica de comércio de bebidas alcoólicas (WSTA), a dizer que até pode ser que seja moda mas que, no caso do vinho tinto, o copo maior «permite [ao vinho] respirar, algo que talvez não fosse uma prioridade há 300 anos”.

Em língua portuguesa pegou-lhe o online “Observador”, com um título estatístico: “Os copos de vinho são sete vezes maiores do que no passado”. Resumiu o que já vinha resumido e não foi mais longe. E é por um triz que não conclui que bebemos hoje mais sete vezes vinho “do que no passado”, ou algo assim.

Mas a questão não se pode pôr nestes termos e o aumento do tamanho dos copos tem de ser enquadrado de outro modo. O vinho que sai da garrafa (ou do bag-in-box) precisa de um recipiente amplo onde possa ganhar estabilidade e descansar da agitação a que a garrafa pode ter sido sujeita, de ganhar contacto com o ar e de libertar todo o seu aroma, ou aromas.

E isso só pode ser feito num copo de boa dimensão ou, em certos casos, através da decantação (que é a passagem para um segundo recipiente de vinho antes de servir). Pode ser moda? Que seja, mas é útil.

É certo que, segundo o “BMJ”, o habitual no Reino Unido são os copos de 0.250ml para o vinho tinto e, por isso, os maiores poderão assustar quem não sabe, ou não aprendeu, a beber.

Mas quem gosta de vinho, e o sabe apreciar e beber, requer um copo maior que, no que pode ser uma surpresa para alguns, nunca será cheio até acima.

A minha opção pelos copos é também a da dimensão adequada. E uso três tipos de copo, de pé alto: em geral, para os vinhos brancos correntes, um copo de 0,300ml; para os vinhos brancos especiais e para os tintos, um copo de 0,500ml; e, finalmente, para os grandes vinhos tintos, copos com 0,600ml de capacidade (que comprei numa loja da empresa Depósito da Marinha Grande, na Rua de São Bento, em Lisboa).

E não, não consumo sete vezes mais vinho “do que no passado”. Até porque, insisto, os copos nunca se enchem.

DIGESTIVO

Uma pequena confraria enófila, de que com muito gosto fiz parte, que durante alguns anos se reuniu em restaurantes da Baixa de Lisboa, conseguiu o prodígio de manter nesses restaurantes coleções de copos adequados para as provas de vinho dos seus almoços. Com o tempo, os copos acabaram por não sobreviver, tal como a confraria também sofreu os efeitos do tempo. E havia sempre mais alguns para os convidados, entre os quais estiveram, por exemplo, outros jornalistas além do autor destas linhas, um dirigente de uma federação sindical e o director do futuro “Portugal Digital”.

 * Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: África 21 Digital

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