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Mia Couto afirma que PALOP estão “no grau zero” de conhecimento mútuo

“Para conhecer o que se faz em Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau ou São Tomé tenho de ir à Europa, passo por Portugal. Esse triângulo tipicamente colonial continua a existir”, lamentou o escritor moçambicano.


África 21 Digital com Lusa


Foto: Facebook Mia Couto


O escritor moçambicano Mia Couto defendeu, na cidade da Praia, que os países africanos lusófonos (PALOP – Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) “estão no grau zero” de conhecimento cultural mútuo, adiantando que continua a “existir um triângulo tipicamente colonial” no seu relacionamento.

“Estamos no grau zero. Para conhecer o que se passa ou o que se faz em Cabo Verde ou em Angola ou na Guiné-Bissau ou em São Tomé e Príncipe tenho de ir à Europa, passo por Portugal. Esse triângulo tipicamente colonial continua a existir”, disse Mia Couto.

O escritor moçambicano está em Cabo Verde, onde hoje será recebido pelo chefe de Estado cabo-verdiano, Jorge Carlos Fonseca, depois de sexta-feira ter participado numa conversa no âmbito do festival literário Morabeza.

Em declarações aos jornalistas, sublinhou a quase inexistência de trocas no domínio da literatura e o fraco conhecimento em outras áreas, ressalvando a exceção cabo-verdiana na música.

“Cabo Verde é uma exceção porque é um grande centro de exportação de música”, disse.

Por isso, o escritor elogiou a decisão da futura presidência cabo-verdiana da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) de eleger como prioridade a criação de um mercado comum de arte e cultura lusófonas.

“Isso é muito bom. Faz falta. É preciso que se roube a iniciativa que agora esta completamente nas mãos do mercado. Quem tem o critério de edição é o mercado e isso sozinho não basta. É preciso que haja qualquer coisa que force um outro critério. Um jovem que não tem venda e que é bom tem de ser apoiado por alguém e esse alguém tem de ser o Estado, uma outra voz”, disse.

Um editor de referência para a literatura lusófona

Durante a conversa com o público, que decorreu na Biblioteca Nacional, o escritor defendeu também a existência da “figura de um editor” para a literatura lusófona, considerando que tornaria a escrita “mais interessante”.

“No mundo da língua portuguesa também faz falta uma figura de um editor, como há na literatura anglo-saxónica. O editor intervém na escrita e discute com o autor, portanto ele é quase um coautor. Na língua portuguesa acontece o contrário, o autor é como uma entidade divina”, disse.

A conversa com Mia Couto inseriu-se na primeira edição do festival literário Morabeza, que decorreu entre 31 de outubro a 05 de novembro, e na qual Mia Couto deveria ter participado.

Compromissos profissionais impediram o autor de “Terra Sonâmbula” de vir nessa altura, tendo a sua participação sido adiada para agora.

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Escrito por: África 21 Digital

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