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O homem, os tiques e as tropas

O presidente, senhor de ego alargado, no dia em que assumiu o cargo procurou trazer para o palco da política brasileira os ritos e os tiques de homem de Estado. Olhando para o passado recente, recordo o discurso emproado. Talvez Sua Excelência tenha acreditado que esse seria o caminho para colocar alguma ordem na desordem. A tentativa fracassou. Mesmo para os que cultivam ódios às esquerdas, Temer se esvaziou como um balão em fim de festa. O presidente não poderá satisfazer os seus rancores. O grande capital tem outras premências.


Agora, a sete meses da eleição presidencial, o presidente redobra esforços para completar o mandato com alguma coisa que possa, eventualmente, ser inserida nas notas biográficas. Sonha, quem sabe, com um repentino clamor popular que o empurrasse para disputar a reeleição. Ou, vamos lá, com o apadrinhamento de um sucessor.

Não será fácil. O presidente tem vindo a acumular derrotas políticas, uma atrás da outra. O presidente está sob investigação da Justiça. É suspeito de corrupção. Alguns dos seus mais próximos colaboradores e aliados estão em idêntica situação. Mas, acima de tudo, o presidente não se revê no país – só assim se compreende que tenha dito e repetido, em diversas ocasiões, que se está borrifando para os baixos índices de popularidade revelados na generalidade das pesquisas de opinião – e, naturalmente, o país não se revê nele. É claro que este desamor mútuo não significa menos querer à pátria ou menos amor da pátria ao filho dileto (à falta de outro, no momento) dos donos disto tudo.

Enterrada que está a tentada reforma da Previdência – feita em cima… dos joelhos ( digamos assim) -, o presidente descobriu num fim-de-semana de carnaval que o Rio de Janeiro não era apenas a mítica Sodoma figurada dos festejos em honra do rei Momo, mas sim um campo de batalha e que urgia tomar medidas dignas de um marechal. Mais uma vez, como tem sido frequente, o caminho mais fácil foi convocar as tropas para pôr ordem na cidade. Nunca se viu da parte de Sua Excelência tanta preocupação com o necessário combate à criminalidade. Mas, enfim, mais vale tarde do que nunca…

Nada melhor para fazer esquecer a falhada reforma da Previdência – que naturalmente terá de ser feita, mas não em cima… dos joelhos – do que colocar na ribalta da mídia as imagens das tropas de fuzis empunhados e dos tanques à volta das favelas onde se acoitam os criminosos, doutorados nas escolas do banditismo e da barbárie de um sistema prisional perverso, medieval, para onde foram lançados desde que começaram a pilhar as primeiras galinhas. Das galinhas, é certo, os que tiveram mais êxito nas façanhas passaram para os carros de grande cilindrada, e para os corredores dos palácios.

A governação do Rio está podre. Está submersa pela corrupção gigantesca que se espalhou ao longo de muitos anos. Essa podridão pantanosa não é de hoje, nem de ontem. A doença é antiga e os senhores dos poderes sabem-no bem. Durante anos e anos nada fizeram, a não ser olhar com complacência para os desmandos. A verdade é que os criminosos das favelas e os criminosos dos bairros “chics” da cidade sempre se olharam com ternura, desde que, é claro, não invadissem os respetivos territórios.

O combate à criminalidade de chinelo do Rio de Janeiro – e, já agora, porque não à violência “esquecida” de grandes metrópoles, como o Recife, entre outras, tão grave ou mais letal ainda do que a que prevalece na cidade maravilhosa?– não pode ter êxito se o combate à criminalidade de colarinho branco e punhos de renda não for levada por diante. As infiltrações do crime organizado, sob as mais diversas formas, atingiram o aparelho de Estado.

Os canhões – pessoalmente acredito que um dia serão objeto de estudo de arqueólogos –  não podem ser apontados só às favelas, onde vivem milhões de brasileiros sequestrados pela violência e abandonados, anos a fio, pelo Estado. Querem saber uma coisa? Até o Exército português, quando serviu o Estado fascista e foi envolvido numa guerra colonial em várias frentes, “descobriu” que mais que lançar bombas de “napalm” sobre populações indefesas, teria de lançar uma “guerra psicológica” em larga escala, ou seja, construção de hospitais, de escolas, de estradas… O regime português de então não ganhou as guerras nas colônias, mas que dificultou as lutas pela independência, lá isso é um fato que, adversários de ontem, amigos de hoje,  todos reconhecem.

Bem, dizem-me, por algum lado é preciso começar. Pois é, mas o que está à vista, infelizmente, é mais uma grande operação destinada a arrebanhar os votos de milhares de homens e mulheres honestos. Os militares, julgo eu, sabem que assim é. Ainda recentemente, o comandante do Exército brasileiro, general Vilas Boas, afirmava e  reiterava que as Forças Armadas não estão preparadas para fazer o papel de polícia e que nem essa é a sua missão. Mas, quem sabe, tudo corre bem? O país e o povo do Rio bem precisam de um combate sério à violência, ao crime organizado e à corrupção.

A todos que tiveram a gentileza de ler esta “carta” um bom fim de semana.

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