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No reino da imprevisibilidade

A menos de cinco meses das eleições presidenciais, o Brasil continua suspenso no reino da imprevisibilidade. E ninguém se atreve a prognosticar quem se irá sentar no dia 1 de janeiro de 2019 no gabinete presidencial do Planalto. Mesmo as previsões econômicas, que podem ser construídas com base em modelos matemáticos, têm a sua fiabilidade bastante reduzida. Há até quem procure respostas no tarô, nos búzios, nos orixás ou em qualquer outra das milhentas artes de adivinhação. E não as encontra.


A possibilidade de Michel Temer vir a ter a oportunidade de ironizar, no pós-eleições,  “ora estão a ver como tinha razão quando dizia que me estava borrifando”,  digamos assim, para pesquisas de opinião e índices de popularidade, parece cada vez mais distante, à medida que novos detalhes das investigações de que é alvo por parte da Polícia Federal e Procuradoria Geral da República vêm a público.

Afinal já estamos, por assim dizer, em vésperas de eleições e o presidente continua a ser líder de impopularidade. É certo que tem gesticular de ilusionista, mas, enfim, o fato é que está muito longe de ter colocado o Brasil “nos trilhos”.

Um excerto de um artigo, com a assinatura do presidente, publicado há seis meses (8 de novembro de 2017) no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, talvez como publicidade redigida, cantava o que considerava serem os êxitos do seu governo e prometia mais.

Os resultados mostram que a estratégia proposta e executada pelo governo está certa. Deixámos a crise para trás e retomámos a trilha do desenvolvimento. Com a convicção de que não há tempo a perder, seguirei adiante na aprovação da agenda de reformas. O próximo passo será a continuidade das reformas, o que garantirá a solvência e a sobrevivência do sistema, além de eliminar privilégios. A simplificação da legislação tributária, outra prioridade, aumentará a competitividade da produção nacional. Com o apoio imprescindível do Congresso Nacional, dos trabalhadores e do empresariado, estamos recolocando o Brasil nos trilhos

Michel Temer, Diário de Notícias, 8 de Novembro de 2017

“Colocar o Brasil nos trilhos” foi durante muito tempo o seu jargão preferido, por agora abandonado. Tal como parece quebrado o ímpeto reformista que durante largos meses propagandeou.

Não creio que Temer passe à história como um presidente reformista. A única reforma que deverá deixar é a trabalhista, que, para ser aplicada, terá de receber dezenas de alterações. Uma reforma que, a par de contemplar algumas medidas,  necessárias, de modernização,  parece ter atendido mais aos interesses imediatistas do grande empresariado que à atualização dos direitos dos trabalhadores.

Se Temer não entusiasma os eleitores, também não é melhor o nível de simpatia despertada pela generalidade dos outros pré-candidatos, que já são mais de uma dezena. A desconfiança dos brasileiros em relação aos políticos parece estar cada vez mais enraizada. Uma desconfiança justificada face a uma democracia doente e perversa, mas que pode entreabrir portas a soluções aventureiras, que se viram sempre, no imediato ou a prazo, contra as camadas mais desfavorecidas e contra a generalidade da população.

As últimas pesquisas de opinião colocavam Bolsonaro, até há pouco um deputado federal quase desconhecido, na segunda posição nas preferências dos eleitores, depois de Lula. Mas, as reais possibilidades de chegar ao segundo turno parece estarem a esfumar-se. Não é que as suas propostas e fanfarronices reacionárias não tenham adeptos, mas já há sinais de que a popularidade do ex-capitão se deve extinguir como um fogo de palha. O seu crescimento nas pesquisas ocorreu mais em função da rejeição a Lula do que propriamente na sua capacidade de captar o eleitorado. E, afinal, o reacionarismo tem alguma dificuldade em casar com a alma brasileira.

Assim, à medida em que se vão esvaziando os sonhos farsescos do grupo que desde há alguns anos tomou conta do PT, que aposta na venda ao país de uma eventual candidatura de Lula, numa cópia maltratada do mito do regresso a Portugal de D. Sebastião, o rei português perdido na guerra contra os mouros na batalha de Alcácer-Quibir,  em terras de Marrocos, nos idos medievais,  também se vai esgotando a popularidade repentina de Bolsonaro. Tudo indica que Lula deverá continuar preso na sala da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde começou a cumprir a condenação a 12 anos e um mês de prisão por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

E os outros protagonistas que se colocam na linha de partida da corrida presidencial?  Quais têm reais possibilidades de disputar o segundo turno?

Ciro Gomes, que se afirma como candidato de centro-esquerda pelo PDT, partido herdeiro do brizolismo,  e que ambiciona conquistar um boa fatia do eleitorado petista? Marina Silva, ex-senadora do PT, fundadora do jovem partido Rede, que nas eleições de 2014, então pelo PSB, obteve cerca de 20 milhões de votos?  Geraldo Alckmin, agora presidente do PSDB e ex-governador de São Paulo, um social-democrata, mais conservador que social, a braços com várias denúncias e com potencial eleitoral muito circunscrito ao estado de São Paulo, grande mas não suficiente, por si só, para eleger um presidente?  Ou mesmo o liberal Rodrigo Maia, atual presidente da Câmara dos Deputados, do direitista partido DEM?

E quem irá o socialista PSB, capaz das mais esdrúxulas alianças – uma característica da generalidade dos partidos brasileiros -, que perdeu há dias o seu grande trunfo, que seria o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que veio a público anunciar que, definitivamente, não será candidato, pelo menos nestas eleições.

A lista é longa e mais longa ainda se juntarmos os pequenos partidos, condenados a negociar apoios, na sua maioria sem princípios, com os grandes.

O deputado federal Mendonça Filho, do DEM, ex-ministro da Educação do governo Temer, disse há dias: “Desde a redemocratização do país, um quadro sucessório nunca esteve tão incerto como o atual. A imprevisibilidade é a única certeza”.  Pelo menos nisto, Mendonça Filho acertou. À direita, à esquerda ou ao centro, seja esse centro mais inclinado para políticas de direita ou de esquerda, conforme os humores dos protagonistas e as alianças nos estados, a imprevisibilidade é, por agora, a única certeza.

A todos os leitores, desejo uma boa semana.

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Escrito por: África 21 Digital

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