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Um país em círculos

A estatal Petrobras, durante anos tida como a joia da coroa, até ser levada quase à ruptura pelos desmandos de governos que, todos o sabemos agora, graças à Lava Jato, dela se banquetearam para fins inconfessáveis, tornados públicos desde há três anos, é gerida agora como se fosse um ente desligado do país.


Uma semana de luta vitoriosa dos quase dois milhões de caminhoneiros brasileiros, uma semana de desastre para um governo que sobrevive à margem do país, uma semana de prejuízos gigantescos para a generalidade da população, para empresários e para o Brasil no seu conjunto.

E tudo isto aconteceu não porque o Brasil tenha sido atingido por alguma catástrofe natural, daquelas contra as quais a Humanidade pouco pode fazer, um violento ciclone, um vulcão em erupção, um abalo sísmico, um tsunami. Enfim, uma das muitas catástrofes que sempre ocorrem em algum ponto do planeta. Não. Nada disso aconteceu.

O que aconteceu foi o que já se sabia, o que o governo (?) sabia, o que o presidente Temer foi avisado. Os caminhoneiros, sobretudo os autônomos, estavam zangados. Asfixiados por uma política tributária e por uma política governamental mais empenhada em servir os interesses dos grande grupos econômicos do que em promover políticas de equilíbrio. Um governo que segue à risca dogmas capitalistas sem olhar para as realidades de um país -gigante em tamanho, mas que continua pobre em desenvolvimento. Um país real bem diferente das cantilenas nacionalistas, do “todos iguais” do marketing oficial, sustentado pelos cofres públicos.

A estatal Petrobras, durante anos tida como a joia da coroa, até ser levada quase à ruptura pelos desmandos de governos que, todos o sabemos agora, graças à Lava Jato, dela se banquetearam para fins inconfessáveis, tornados públicos desde há três anos, é gerida agora como se fosse um ente desligado do país. Em nome dos mercados, seja lá o que isso for, os patrões da Petrobras passaram a aumentar diariamente os preços dos combustíveis, alegando acompanhar os mercados internacionais. Rapazes bem comportados! Gestores pagos a preço de ouro!

Tão bons, tão bons mas não perceberam, ou fazem que não percebem, que a conjuntura econômica, social e política do país não possibilita a aplicação dogmática de “regras” do sistema. E o presidente da República, e o seu governo, que olha melancolicamente para o fim das mordomias e das promessas de recompensas futuras, tão frequentes na Esplanada dos Ministérios, mais preocupados em ver como se livrar das investigações policiais e do Ministério Público Federal por supostos crimes de corrupção e outros mal-feitos, não prestaram atenção à revolta que germinava num setor que movimenta diariamente grande parte do PIB nacional, da riqueza produzida em todo o país.

Zangados com o que pagam diariamente para abastecer os seus veículos, sufocados por impostos e toda a espécie de tributos criados por governos frágeis e por um Congresso Nacional formado por parlamentares que, em muitos casos ( mas mesmo muitos), olham o serviço público como um caminho rápido para o enriquecimento privado, os caminhoneiros decidiram parar. E o país quase paralisou.

E o presidente, incomodado por não ter conseguido os apoios necessários para se candidatar à eleição presidencial em outubro, e incomodado pelo aprofundamento das suspeitas e das investigações que contra ele correm na Justiça, o que fez? Primeiro, não fez nada; depois fez um acordo de “tréguas”, como disse, com algumas entidades associativas de caminhoneiros, pouco influentes no movimento, a quem prometeu, provisoriamente, uma mão-cheia de benefícios ; finalmente, quando percebeu que, afinal, não tinha conseguido desmobilizar os caminhoneiros, quando os aviões já não levantavam voo, quando os postos de combustíveis ficaram sequinhos, sequinhos, quando as escolas públicas fecharam, quando os ônibus deixaram de circular, quando o oxigênio começou a faltar nos hospitais, o presidente da República chamou o Exército, a Aeronáutica, a Marinha, a polícia federal, as polícias dos estados e os bombeiros para porem fim, pela força, se necessário, aos protestos nas rodovias do Brasil.

Se tudo correr bem, sem incidentes graves, dentro de alguns dias o abastecimento voltará a normalizar, a especulação desenfreada de preços deverá recuar e o país voltará a circular, ou seja, a andar em círculos até à próxima crise. O presidente “reformista”, afinal, nada reformou.

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