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Fraca e jovem, democracia brasileira ainda é melhor do que qualquer ditadura

 

A greve dos caminhoneiros durou dez dias, provocou imensos prejuízos à cadeia produtiva e colapsou múltiplos serviços em todo o País. Ainda assim, o movimento contou com o apoio da maior parte da população. Pesquisa Datafolha, realizada no dia 29 (10.o dia de greve) por telefone, com 1.500 entrevistados, apontou que 87% defendiam a mobilização e 56% avaliaram que ela deveria prosseguir.

Agora, vamos a um outro estudo, concluído em março, no qual 53% de um apanhado de 2,5 mil pessoas, em todo o território nacional (menos Amapá), consideravam aprovar um “golpe militar”. A análise é do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, parte do Programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT).

O que pode haver em comum entre os que legitimam uma greve de dimensão como a dos caminhoneiros com aqueles que corroboram intervenção militar? Quem aplaude a primeira causa pode dar anuência à segunda? Parece óbvio que os simpatizantes dessas motivações não podem, sob o peso da incoerência, estarem do mesmo lado. Manifestações se opõem, por natureza, a regimes totalitários. São princípios que não dialogam!

As paralisações e os bloqueios que tomaram conta do País só foram possíveis graças ao sistema democrático. Um direito coletivo amparado pela Constituição. Pedir a volta da ditadura, na qual mergulhamos 21 anos amargando com a soberania de tiranos, revela desconhecimento da história do Brasil, desrespeito à memória dos que lutaram e, principalmente, daqueles que perderam suas vidas para que possamos, hoje, gozar de liberdade de expressão, direito de greve, organizar protestos, escolher nossos representantes – e até insultá-los e achincalhá-los.

Temos uma democracia frágil, conturbada e jovem – o processo de redemocratização brasileiro soma pouco mais de três décadas. Ainda assim, ele é melhor do que qualquer ditadura, seja ela de direita ou de esquerda. Cabe tão somente à sociedade se unir para fortalece-la. Um processo de construção que deve ser permanente.

Não adianta criticar, execrar nossos representantes se somos os responsáveis por leva-los ao poder, mas, acomodados no mandato outorgado pelo voto direto, não empregamos o mínimo esforço em fazer a nossa parte. Não fiscalizamos suas atividades, seja no Executivo ou no Legislativo; não os punimos nas urnas quando contrariam as regras do interesse comum, extrapolam suas atribuições ou legislam em causa própria.

É completamente equivocado atribuir a corrupção como um mal inerente à democracia. Graças ao regime democrático somos informados dos assaltos aos cofres públicos, dilapidação de estatais e das maracutaias praticadas por políticos, seus colaboradores ou legendas partidárias.

Nas duas décadas em que o Brasil permaneceu imerso na escuridão da ditadura, a corruptela vertia solta nos bastidores. Nos anos de chumbo, houve contrabando no Exército, mordomias bancadas pelo regime militar e pipocaram escândalos como Coroa Brastel, Capemi, Grupo Delfin, Luftalla e dossiê Baumgarten. São bem conhecidos os casos de superfaturamento na construção da Ferrovia do Aço e os desvios de dinheiro público para a construção de grandes obras, como a rodovia Transamazônica, que nunca foi concluída.

O período também foi marcado por crescimento da violência urbana. À época, a revista Veja relatou a eclosão em quatro capas, revelando arrastões a prédios, os vigilantes privados e anúncios com promoção de revólveres. E para colocar os pingos nos ‘is’, pesa na conta dos ditadores seis mil casos de tortura e quase 500 mortos ou desaparecidos que se opuseram ao regime das Forças Armadas.

Com a diferença que nos anos de autoritarismo as negociatas eram muito bem acomodadas nas gavetas e trancafiadas, enquanto, hoje, a imprensa tem total liberdade para investigar e noticiar as falcatruas. A democracia também conta com opositores para denunciar as práticas abusivas de quem está no poder.

Qualquer cidadão também pode utilizar os meios que dispõe, como redes sociais, para comentar, delatar, discutir o que quiser sobre qualquer tema, incluindo os mandos e desmandos de seus governantes. Sem medo de mordaça, prisões, torturas e morte.

Quando o dinheiro e o poder se juntam para promover roubalheiras estamos diante de uma cleptocracia. E o melhor remédio para combater esta praga se chama democracia. Se temos que fazer algo pelo Brasil, é arregaçar as mangas para amadurecer nosso sistema democrático em vez de buscar meios para sufocá-lo!. Não existe democracia sem povo. Cidadão calado e subserviente não faz e não muda nada.

Especialistas no assunto concordam que para alcançar a Noruega, considerada o país mais democrático do mundo, é essencial a participação política e cultura política, liberdade civil, processo eleitoral e pluralismo, baixa desigualdade social e investimentos em educação.

Para chegarmos perto disso, precisamos muito da participação e da organização popular, do desempenho das classes trabalhadoras no processo político, partidário e eleitoral. Devemos ser sujeito e não meros espectadores ou coadjuvantes da democracia.

As atividades da sociedade aproximam as políticas públicas dos anseios da população. Acreditar que os problemas do Brasil serão solucionados com mão de ferro é desconhecer como realmente funcionaram as engrenagens e as reais consequências do poder à mercê de um governo autoritário. De um ambiente opressor tudo o que podemos esperar é a ausência da consciência crítica e o aumento da alienação. O regime ditador promete “benesses” em troca da supressão da liberdade, direitos e poderes políticos. Uma vez nele, a minha, a sua, as nossas vozes, mesmo que fortes e em uníssono, não valem nada.

Rosana Tonetti, brasileira, de São Paulo, é jornalista e atualmente se divide entre o eixo Brasília e São Paulo. Trabalhou em jornais como Estado de S.Paulo, Correio Braziliense e revistas da Editora Abril. Participou de vários projetos de comunicação corporativa e institucional.

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Escrito por: África 21 Digital

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