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A princesa do Oeste

Na comunidade das castas tintas portuguesas há de tudo: uma espécie de matriarca, a Touriga-Nacional, uma rainha-mãe influente e poderosa como Catarina, a Grande, mas sem as suas peculiaridades mais controversas; uns topa-a-tudo que servem para todo o serviço; alguns barões, como a Periquita ou o Alfrocheiro; uma espécie de tia maluca mas muito respeitável que é a Baga; um arrivista novo-rico e oportunista que é o Cabernet-Sauvignon; e uma princesa mais plebeia, de identidade pouco definida aos olhos de muitos, que é a Aragonez (ou Aragonês). Ou Tinta Roriz. Ou, para os espanhóis, a Tempranillo.


O Aragonez veio, aliás, de Espanha para Portugal, dando-se bem nos diversos “terroirs” e climas portugueses, sobretudo em solos arenosos e argilosos com calcário. Gosta de calor  e pode dar origem a vinhos de boa graduação alcoólica e capacidade de envelhecimento. É quase essencial no Douro, muito recomendada no Dão (regiões onde tem o nome de Tinta Roriz) e tem estado presente em muitos vinhos da região central do país (Noroeste e Nordeste de Lisboa).

É esta sua versatilidade que, dando-lhe força, a remete, paradoxalmente, para um papel por vezes secundário. É a tal princesa útil para compor os retratos mas que, solteira e vagamente estouvada, tem de andar de rédea curta.

Há dois anos, em casa de pessoas amigas, foi aberta uma garrafa de um vinho tinto de 2003 da Adega Cooperativa de Dois Portos (Torres Vedras), feito só de Aragonez e com a marca “Monte Judeu”. Foi uma surpresa porque o vinho revelou-se quase perfeito. Bem guardado, sobreviveu a 13 anos de espera. Uma segunda garrafa, aberta semanas depois, confirmou-me as suas qualidades.

Mais recentemente, bebi outros monocastas de Aragonez. Um “Mundus” de 2015 da Adega Cooperativa da Vermelha (Cadaval) estava cheio de força e sabor mas talvez a precisar de mais descanso para ficar completamente definido. E outro, do ano passado (2017), um “Voo Real” da Quinta do Gradil (da discreta Parras Wines) voou… bem alto. Com toda a força de um vinho novo mas já em muito boa maturação e uma graduação de 14% (talvez mais apropriada do que os 13% do “Mundus”), deixou uma promessa de que irá evoluir muito bem.

Três vinhos, e alguns outros com potencial mas de segundo plano, não chegam para aquilatar da boa adequação do Aragonez aos vinhos desta região. Mas fazem pensar que esta princesa das castas até pode encontrar no Oeste o seu reino.

Digestivo

O vinto tinto José de Sousa Reserva de 2014 (um alentejano da José Maria da Fonseca) é um exemplo de como a casta Aragonez pode ficar remetida a um papel secundário. Com proveito para o produto final? Talvez. Neste caso, o papel principal é da casta Grand Noir (58%), com Trincadeira (27%) e Aragonez (15%). E o resultado, recuperando a menos usada Grand Noir, deixando em paz a Touriga Nacional e evitando a negregada Cabernet-Sauvignon, é notável, fazendo recordar a imagem mais “clássica” dos bons vinhos do Alentejo.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

 

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Escrito por: África 21 Digital

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