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Uma vitória anunciada

A vitória de Bolsonaro já estava anunciada. As pesquisas de intenção de voto indicavam que grande parte dos eleitores brasileiros iriam levar ao Planalto para um mandado de quatro anos, a partir de 1. de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro. A vitória do candidato, político de quase três décadas de tarimba como deputado federal na Câmara dos Deputados, era esperada.


Uma vitória que é uma importante derrota para os partidos e correntes de pensamento democrático do Brasil e, sobretudo, para o Partido dos Trabalhadores (PT), liderado de fato pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cujos movimentos estão limitados, desde abril deste ano, a uma sala da Polícia Federal, em Curitiba, onde cumpre pena de prisão de 12 anos e um mês de condenação, em tribunal de segunda instância, por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Bolsonaro, ex-capitão do Exército, na reserva, com discurso característico da extrema-direita, saiu este ano do quase anonimato onde se arrastava há quase três décadas numa poltrona do parlamento brasileiro para se lançar numa disputa política que, surpreendentemente, conduz essa figura até há pouco tempo desconhecida ao mais alto cargo do Brasil. Usando um discurso marcado por manifestações de ódio e de preconceitos vários,  Bolsonaro empolgou milhões de brasileiros que elegeram nos últimos anos Lula e o petismo como os responsáveis pelos males em que o país está mergulhado: o desemprego e o subemprego de grande parte da população, a violência nas ruas das grandes metrópoles, os corredores de uma boa parte dos hospitais públicos transformados em antecâmaras  de mau atendimento e sofrimento,  a má qualidade do ensino público, o saneamento por fazer em grande parte do país. A lista seria longa.

Não é difícil, nem excessivo, caracterizar o vencedor da eleição presidencial no Brasil como um político de extrema-direita, imbuído de aparentes predicados morais de caserna. Mas não só excessivo como errado seria, a meu ver, caracterizar a vitória de Bolsonaro como um grande sucesso da extrema-direita brasileira.

Na verdade, acredito que grande parte dos que votaram no militar o fizeram apenas para dar um “basta” ao PT. Muitos dos que em anteriores ciclos eleitorais votaram em Lula, decidiram, desiludidos e desesperançados de um sistema que possibilitou o crescimento da corrupção endêmica, dar agora o seu voto a uma candidato que prometeu a paz – ainda que possa vir a tornar-se uma paz podre -, o combate à corrupção e o fim da velha política. Nada que seus antecessores não tivessem já feito em idênticas profissões de fé.

Eles, os eleitores de Sua Excelência, não sabem, não querem saber ou nem se importam, neste momento, que as ameaças à democracia possam se tornar dramaticamente reais. Tal como grande parte dos cidadãos comuns, distantes de conceitos ideológicos, consideram que as abstrações não são importantes, pelo menos enquanto não se efetivarem.

Não era Haddad, nem Lula, que poderiam enfrentar Bolsonaro em defesa da democracia. Pelo simples motivo que, mais que apoiar seja o que for das generalidades programáticas avançadas pelo ex-capitão, o que esses milhões de brasileiros quiseram realmente foi afastar o PT do poder.

Abre-se agora à democracia brasileira uma nova etapa, na qual a defesa das suas instituições e da sua Constituição serão prioridades. E para esses novos tempos que despontam, ameaçados pelas sombras da ignorância, dos preconceitos e da sede de poder, só uma grande unidade nacional, em torno dos fundamentos de uma democracia real, não formal, poderá impedir que o sol tropical seja escondido por nuvens de retrocessos, de ameaças e de autoritarismo.

Uma ampla unidade em que todos os democratas se revejam. Que a derrota de Haddad, que é também ou sobretudo a derrota de Lula, sirvam, pelo menos, para abrir novos caminhos de construção de uma democracia mais consolidada, expurgada das tentações hegemônicas e equivocadas de um PT que, quando autocrítico e liberto dos erros cometidos e das lideranças maculadas pela corrupção, possa ter ainda um papel significativo na defesa da democracia e dos preceitos constitucionais.

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Escrito por: África 21 Digital

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