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A exclusão talvez seja boa


A multiplicidade de regiões e de “terroirs”, cuja importância ainda está muito longe de ser compreendida pelo público interessado e interessável, ganha em certa medida com a exclusão do “mainstream” dos vinhos padronizados


O título pode impressionar: “Vinhos portugueses fora do top 10 da ‘Wine Spectator’”. A notícia é do “Diário de Notícias” português, que cita directamente a “prestigiada revista norte-americana”. Nos “dez mais” de 2018 (https://top100.winespectator.com/2018/) há vinhos italianos, franceses, espanhóis e norte-americanos, cabendo o primeiro lugar ao italiano Sassicaia, de 2015 (das castas Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc).

Há uma segunda lista, de 100 vinhos, mas a sua divulgação fica só para o fim do ano. Suspense: Portugal estará representado? No ano passado, não esteve: os 100 mais de 2017 (https://top100.winespectator.com/lists/) excluíram os portugueses. Já agora: desta centena do ano passado, há sete com Cabernet Sauvignon e até apostaria que mais de metade tem o sabor abaunilhado e adocicado que se espera desta casta.

É sempre delicado quando os produtos de um país vitivinícola ficam excluídos do que é considerada uma apreciação tão cheia de prestígio. Por um lado, parece mal. Por outro lado, talvez se vendam menos nos grandes restaurantes e nas lojas grandes e médias de todo o mundo. Mas há um problema que lhe está associado: os vinhos que conseguem chegar às listas de topo da “Wine Spectator” reflectem, necessariamente, o que de melhor produzem os
vários “terroirs” do território português?

Aparentemente, não. Os vinhos que têm sido distinguidos estão em geral muito próximos, em aroma e gosto, dos padrões de consumo internacionais em sectores sociais, culturais e de opinião que determinam as opções dos produtores. É, a uma escala global, o que acontece no mercado português com uma nivelização de gosto que, muito resumidamente, dá origem a vinhos tintos abaunilhados, brancos muito frutados e rosés, muitos rosés. E, consequentemente, a uma predominância de vinhos do Alentejo e a alguns do Douro.

A “fileira do vinho”, como genericamente se designa o conjunto de produtores, distribuidores, retalhistas e outros, tem um peso económico muito importante em Portugal e é um elemento essencial do turismo gastronómico. E a sua importância não é artificial: ela reflecte a expansão da vitivinicultura neste país e até pode ser instrutivo recordar um lema do Estado Novo em Portugal: “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.” Por isso, é desejável que este sector prospere e se desenvolva.

Não penso, no entanto, que ele ganhe com uma uniformização do gosto. É uma opção que tenderá a destruir, ou ocultar, as especificidades regionais e, mais do que isso, a prejudicar o desenvolvimento regional. Ou seja: se todos os vinhos forem iguais, talvez saia mais barato fazer vinho no Alentejo do que no Dão e, como tal, não se justificará a existência de profissionais e empresas no Dão – as uvas podem ir todas para o Alentejo e ser aí “trabalhadas”.

A multiplicidade de regiões e de “terroirs”, cuja importância ainda está muito longe de ser compreendida pelo público interessado e interessável, ganha em certa medida com a exclusão do “mainstream” dos vinhos padronizados e perde quando esses destaques internacionais só contemplam o que for mais fácil de contemplar.

Digestivo

O preço não é um factor de distinção e começa a generalizar-se a impressão de que há vinhos a preços tão elevados cuja lógica é apenas a de proporcionar uma imagem de produto de luxo que só é bom porque é caro. Haverá, decerto, elementos que permitam perceber a adequação dos preços às qualidades aos produtos mas nada que o explique, em termos públicos. É pena que a imprensa especializada, que às vezes dá a impressão de ser mais aduladora do que crítica, não contribua para o esclarecimento do público, sobretudo quando, em alguns casos, até é capaz de destacar vinhos de qualidade de preços variados.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: África 21 Digital

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