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O otimismo populista

As mais recentes pesquisas de opinião no Brasil, realizadas pelo instituto Ibope, mostram duas coisas: uma é que o governo do presidente Temer encerra dois anos e pouco de mandato melancolicamente isolado da população; a outra é que o novo governo, o de Bolsonaro, que vai assumir, dia 1 de janeiro, os destinos do país para os próximos quatro anos, conta, à partida, com 75 por cento de expectativas positivas dos inquiridos.


Acreditando, dentro das cautelas que a prudência sempre recomenda, nas sondagens de opinião, pode-se dizer que o capitão paraquedista na reserva Jair Bolsonaro, velho conhecedor da política brasileira, por cujos corredores na Câmara dos Deputados perambulou, quase invisível, diga-se em abono da verdade, por quase três décadas, assume dentro de dias a presidência de 220 milhões de brasileiros com o confortável apoio de 55 por cento dos eleitores, contra cerca de 45 por cento do seu adversário petista Fernando Haddad.

Entre 28 de outubro, quando a vitória de Bolsonaro foi confirmada nas urnas,  e os dias pré-festivos de Natal e Réveillon em que estamos, o presidente eleito tem tido a oportunidade de se mostrar. E, até ao momento, não parece que os raciocínios um pouco atabalhoados, digamos assim, que vai expressando nas redes sociais, tenham diminuído a fé que milhões de brasileiros colocaram no próximo presidente da República.

Acreditaram não tanto pelas promessas de combater a corrupção, o nepotismo, o desemprego e a violência – não necessariamente por esta ordem –  que Bolsonaro fez, mas, sobretudo, pela promessa de erradicar o “petismo” do poder. E, pelo menos neste quesito, o presidente-eleito parece não pretender defraudar os seus eleitores.

Ainda que já tenha dito que vai governar para todos os brasileiros e que respeitará a Constituição, Bolsonaro continua a produzir manifestações que alguns dizem ser de “ódio”, não só ao PT, cujos líderes, convenhamos, contribuíram decisivamente para o seu próprio ocaso, mas a tudo o que lhe cheire a esquerda, a progresso e a lutas sociais. O que, naturalmente, é preocupante para todos os que consideram a democracia um bem nacional inalienável, que não deverá ser sequestrado por qualquer pretor.

Mas, além das questões e das dúvidas que se possam colocar, de maior ou menor pertença a sentimentos verdadeiramente democráticos, outras são suscitadas pela ausência de um programa claro de governação.

Combate à corrupção? Sim, essa é uma prioridade nacional, que parece ser partilhada pelo país, à direita ou à esquerda, pelo empresariado e pelos trabalhadores. E como tirar o Brasil da crise econômica em que se encontra desde há vários anos? Que reformas fará e como as pretende fazer? A quem servirão? Ao país ou, como acontece desde há muito, aos habituais grupos sociais detentores dos poderes?  A reforma da Previdência, à beira da ruptura, de acordo com a generalidade dos analistas, a reforma tributária e a reforma da administração pública são consideradas fundamentais para a retomada do crescimento econômico. Mas, todas elas, vão exigir estreito diálogo com a Câmara dos Deputados e com o Senado. Quando tal começar a  acontecer, já haverá indicação clara sobre se as promessas de Bolsonaro são exequíveis ou se, afinal, não passaram de um grande logro em que a população brasileira foi trapaceada politicamente, como tantas vezes no passado.

Até agora, a composição do governo, com oito oficiais-generais em lugares de destaque, alguns economistas seguidores do liberalismo ensinado na Universidade de Chicago, que acreditam numa onda de privatizações como solução milagrosa para os problemas brasileiros e figuras como a indicada ministra da Família, Direitos Humanos, a pastora evangélica Damares Alves, senhora de grande fé, que teria sido agraciada, ainda jovem, com a aparição de Jesus Cristo sobre uma goiabeira – como se vê  uma narrativa diferente da aparição da Senhora de Fátima aos pastorinhos que viram a santa sobre as azinheiras portuguesas.

Ou, ainda, o caso do futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a braços com uma investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal,  ou, por último, mas não menos importante, o envolvimento, mesmo que involuntário, do próprio Bolsonaro e família próxima num caso de movimentação de dinheiros pouco ortodoxa, de acordo com relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).  Tudo isto deixa adivinhar que o  novo ciclo governativo poderá começar, afinal, com o “pé esquerdo”.

As declarações de Jair Bolsonaro e dos seus filhos, Eduardo Bolsonaro, eleito deputado federal, e Carlos Bolsonaro, senador, postadas em redes sociais, sobre os mais diversos assuntos, deixam antever conflitualidades.

O seguidismo em relação aos Estados Unidos e a manifesta admiração pelas políticas de Trump, ignorando a praxis diplomática brasileira de grande pragmatismo no relacionamento internacional, poderão colocar em risco a captação de investimentos e lançar o Brasil num percurso de isolamento.

Macron, presidente da França, e Merkel, a chanceler alemã, já se pronunciaram, de forma crítica, sobre declarações de Bolsonaro, quer no que diz respeito ao Acordo de Paris, sobre alterações climáticas, quer sobre o fechamento das negociações para um acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Num caso e noutro, Bolsonaro teceu considerações pouco amistosas em relação à União Europeia. A China, primeiro destino das exportações brasileiras, e a generalidade dos países árabes, também não têm sido poupados.  A proclamada intenção de acompanhar Washington na mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém Ocidental é vista com preocupação. Afinal, a maior parte das exportações brasileiras de carne de frango vão precisamente para os países árabes do Oriente Médio.

Na última semana, o ministro cessante da Agricultura, Blairo Maggi, um dos maiores empresários do setor, advertiu o presidente eleito sobre possíveis consequências desastrosas para o agronegócio brasileiro caso o próximo ocupante do Palácio do Planalto persista nesse rumo.

A lista de gafes diplomáticas, em menos de dois meses, é extensa. As declarações conflitantes entre Bolsonaro, os filhos e integrantes da sua equipe de governo evidenciam, pelo menos no período de transição,  falta de unidade programática.

Que o governo Bolsonaro pretende prosseguir uma política direitista, em defesa, é claro, do que entendem ser o interesse nacional, não está em dúvida. O que suscita dúvidas é se Bolsonaro, um político convictamente direitista, que pretende surfar na onda do populismo, conseguirá levar por diante os compromissos assumidos na campanha eleitoral: o combate à corrupção, ao nepotismo, à violência, ao desemprego, a austeridade nas contas públicas, e o lançamento do Brasil num novo ciclo de prosperidade. Por enquanto, Jair Bolsonaro parece contar com a fé de milhões de eleitores, sobretudo das camadas médias. Talvez seja apenas uma questão de fé.

Por enquanto, Bolsonaro e a sua equipe podem erguer a bandeira do otimismo. Por quanto tempo, pelos quatro anos do mandato? Ou será um otimismo de pouca duração? A resposta está, naturalmente, nas mãos do país e dos grandes investidores internacionais. Sem eles, será muito difícil que o presidente eleito consiga levar avante as suas promessas e compromissos.

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Escrito por: África 21 Digital

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