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Populismos e outros ismos… não recomendáveis


O África 21 Digital publica em parceria com o Portugal Digital publica uma série de nove artigos de análise e perspetivas sobre o novo ano, de jornalistas, escritores, advogados e professores universitários do Brasil e de Portugal. O terceiro artigo é do professor José Carlos Venâncio.


Assiste-se hoje, um pouco por toda a parte, à emergência de populismos, revestidos, por vezes, de características do que, à luz da teoria sociológica, se designa por movimentos sociais, como foi o caso do recente movimento dos coletes amarelos em França, cuja réplica em Portugal mais não demonstrou do que a grande diferença, no que à tradição de contestação diz respeito, entre a sociedade francesa e a portuguesa.

As mesmas razões tiveram efeitos diversos. Quer enquanto tendências ou posicionamentos, quer enquanto movimentos sociais, a natureza dos populismos tem-se apresentado difusa nos seus propósitos ideológicos, defendendo causas como o do fortalecimento dos espaços económicos nacionais através da reposição de fronteiras ou a implementação de políticas anti-imigração, que, assumindo dimensões xenófobas e racistas, se dispõem a serem consideradas pelo establishment político, num propósito assumidamente reducionista, como fascistas.

Não deixando tal consideração ou caracterização de ser verdadeira, ela traduz, porém, apenas parte do problema, que o mesmo será dizer, explica deficitariamente a conjuntura da sua emergência. É negligenciada uma parte significativa das razões que estão na sua origem, que se prendem, sobretudo, com o descontentamento generalizado de que tem padecido a classe média, mormente a dos países industrializados. Perante o liberalismo vigente e os vícios dos sistemas políticos democráticos, incapazes de colmatar as crescentes desigualdades sociais, tem essa classe visto, nas últimas décadas, as suas life chances (para utilizar um conceito caro a Max Weber e a Ralf Dahrendorf) e o seu poder de compra progressivamente diminuídos.

Deste modo, pensar que todos aqueles que, de algum modo, aderem ou se manifestam como populistas são fascistas, parece-me ser um erro crasso. É fugir à questão fundamental, cuja solução passa pela (eternamente adiada) reforma dos sistemas políticos, pela transparência da governação, pelo combate à corrupção e pela, não menos importante, eficácia dos sistemas judiciais. Talvez o que aqui é proposto como panaceia não esteja longe do que Max Weber, há um século, considerava como dominação legal, ou seja, um exercício do poder pautado pelo fim das arbitrariedades e pela universalização da lei: a lei (leia-se também oportunidades) igual para todos!

A ética que o atual sistema-mundo capitalista, porque (supostamente) vitorioso na luta contra o socialismo ou comunismo, “chutou para canto”, deve, pois, nesta ordem de ideias, ser reconsiderada. Na economia, no capitalismo não pode valer tudo. Caso contrário, fenómenos como o de Trump ou Bolsonaro tornam ainda mais frequentes em óbvio prejuízo de valores que muito custou à humanidade conquistar.

Bem sei que é uma tarefa árdua que os políticos e os decisores do mundo livre têm em mãos. Não é fácil, neste desiderato, reconsiderar, por exemplo, as relações que esse mesmo mundo tem com a China e o papel deste país na economia mundial ou ainda, num plano de menor relevo, mas por isso mesmo mais concretizável, negligenciar, no seio de uma comunidade como a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) o peso da economia em benefício da cultura e dos direitos humanos.

Entendo, por isso, as dúvidas que terão acometido os governos de Dilma Rousseff (Brasil) e de Eduardo dos Santos (Angola) quando o governo ditatorial da Guiné-Equatorial decidiu integrar a comunidade em apreço, em confronto com a natureza e os princípios ideológicos desta. Os governos brasileiro e angolano votaram pela integração e, com essa opção, fragilizaram a organização, e, pior do que isso, perderam uma excelente oportunidade para se posicionarem do lado certo da história.

E hoje, na verdade, olhando para o que tem acontecido a Eduardo dos Santos, expectavelmente a bem de Angola, e para a ascensão do bolsonarismo, e tudo o que ele pode significar de trágico, no Brasil, apetece-me dizer, decalcando um velho adágio popular: o feitiço virou-se contra o feiticeiro!

*José Carlos Venâncio é professor catedrático da Universidade da Beira Interior, em Portugal, onde é vice-presidente do departamento de Sociologia.

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Escrito por: África 21 Digital

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