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Bolsonaro, Bebianno e a crise anunciada

Um mês e meio. Menos de um mês e meio foi o tempo que o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, levou para se incompatibilizar com um dos seus mais próximos e leais ministros, protagonizando uma crise com consequências que podem evidenciar ainda mais a fragilidade  de um governo cuja existência é, por si mesma, um percalço da democracia.


No final da tarde de segunda-feira, 18, Bolsonaro deu a conhecer ao país a exoneração do ministro da Secretaria Geral da Presidência da República. Uma decisão que já era esperada após uma semana de crise, que tornou ainda mais evidentes as fragilidades do governo.

Gustavo Bebianno, um advogado e político que, até há dois anos, era um quase desconhecido, foi, juntamente com Bolsonaro, um dos principais protagonistas da crise que durante uma semana ocupou e possivelmente continuará a ter espaço cativo nos horários nobres dos noticiários.

Bebianno foi presidente do PSL, um pequeno partido, cujos ativistas, emergentes da campanha eleitoral em torno do discurso radical de Jair Bolsonaro,  flutuam entre as convicções de uma direita reacionária e os ódios de uma extrema-direita.  Foi ao PSL que se juntou o então deputado federal Jair Bolsonaro, em 2018,  para viabilizar a sua candidatura ao Palácio do Planalto.

Nesse percurso, Bebianno foi o leal coordenador da vitoriosa campanha eleitoral do antigo capitão do Exército. Com a vitória de Bolsonaro, Bebianno transmitiu a presidência partidária  e deixou a atividade parlamentar para ir fazer política no Palácio do Planalto, como ministro da Secretaria Geral da Presidência da República.

As coisas não correram bem. Bolsonaro não chegou sozinho ao Planalto. Consigo “levou” a mulher, Michele Bolsonaro, que, à margem dos ritos tradicionais da posse presidencial, também discursou na cerimónia, e os três filhos, nomeadamente o senador Flávio Bolsonaro, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, e o vereador no Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro.

A presença dos filhos e a sua intromissão no dia-a-dia da política governativa, os “palpites” diários nas redes sociais e os sistemáticos recados, tornaram se incómodos para uma boa parte dos ministros e demais aliados de Bolsonaro.

O caldo entornou quando Carlos Bolsonaro rotulou nas redes sociais Bebianno de “mentiroso”, depois do ministro afirmar ter falado com Bolsonaro por telefone, a propósito da denúncia vinda a público de que teria viabilizado a entrega de dinheiro do fundo partidário a uma candidata “laranja” a deputada federal pelo PSL, em Pernambuco.  Uma operação longe de ser inédita na política brasileira, mas ilegal.

Bolsonaro não só não desautorizou o filho Carlos como compartilhou os seus ataques a Bebianno.

Ao longo da última semana, os mais próximos a Bolsonaro procuraram persuadir o presidente do Brasil a manter Bebianno no Palácio do Planalto e a colocar os filhos onde realmente deveriam estar, isto é, fora do governo. Bolsonaro não aceitou os conselhos. E Bebianno recusou afastar se por iniciativa própria, deixando o ônus da exoneração na esferográfica do antigo capitão, que se rodeou de generais. E assim foi: Bebianno não se demitiu e Bolsonaro teve de usar a esferográfica de serviço para o afastar.

O que já se antevia como uma vitória eleitoral amarga, apresenta-se hoje como uma ameaça de instabilidade política gerada pelos próprios detentores do poder Executivo.

A frágil unidade programática do governo, repleto de generais, poderá dificultar ainda mais a discussão no Congresso nacional de reformas consideradas essenciais pelo Planalto, como a da Previdência, que Bolsonaro pretende entregar pessoalmente na quarta-feira (20).

Os adversários do programa direitista, que Bolsonaro quer promover pelas redes sociais, não são apenas, naturalmente, os seus adversários políticos e ideológicos. Os seus aliados conjunturais olham com cada vez maior desconfiança para a capacidade do Executivo governar o país. Esse imenso e diverso Brasil.

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